No afã de embelezar a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2008, a prefeitura pequinesa vem atropelando, com seu rolo compressor, um pedaço de sua história: os hutongs, conjuntos de moradias populares, semelhantes aos cortiços brasileiros. No idioma manchu, “hutong” significa “ruas estreitas”. É fácil perceber o porquê do nome. Os hutongs são um labirinto de ruas e vielas apertadas, por onde o tráfego mais freqüente é o de bicicletas, que vêm e vão levando pessoas e mercadorias.
Como o espaço interno das casas também é apertado, as pessoas fazem de tudo na rua, desde as refeições até dar banho nas crianças – e inclusive as necessidades fisiológicas (em banheiros comunitários), já que, via de regra, as casas não têm toalete. Com a vida transcorrendo na rua, configura-se um clima de cidade interiorana, um lugar em que o tempo parece ter parado.
Os hutongs são bastante antigos. Originalmente, eles foram erguidos para abrigar funcionários da burocracia imperial, entre o final do século 13 e o começo do século 14, durante a dinastia Yuan. As casas variavam de tamanho e conforto, mas todas tinham, como traço comum, um pátio no centro. Com a derrocada do império, no início do século 20, grande parte das casas foi tomada pelo proletariado. Algumas delas foram restauradas e deram lugar a simpáticos restaurantes e pensões agradáveis. Mas a maioria das residências passou a ter o espaço interno seguidamente subdividido, de modo que atualmente várias famílias moram no espaço onde antes vivia uma só.
Se, por um lado, os hutongs representam uma cultura e uma arquitetura tradicionais de Pequim, e, portanto, passíveis de preservação, por outro eles não deixam de constituir um problema social, revelando um quadro sombrio de falência administrativa (um dilema semelhante ao qual o Rio de Janeiro se depara com suas favelas, que porém não têm nem de longe a mesma importância histórica).
Entre preservar e demolir, a escolha do governo parece pender claramente para a segunda opção. A demolição dos hutongs não vem de agora, apenas se intensificou com a iminência dos Jogos. Nos últimos 30 anos, estima-se que dois terços deles tenham sido postos abaixo com seus moradores sendo transferidos para os subúrbios da capital. Com eles, se vão também suas memórias, e o registro de um estilo de vida mais simples.
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